Análise de Efésios 4.1-6

→ O apóstolo faz agora uma importante transição. Os primeiros três capítulos dão-nos uma visão do todo, começando antes da criação, quando Deus planejou nossa incorporação no corpo de Cristo, e como ele nos resgatou do império das trevas e está produzindo a sua obra de arte em nós. E essa obra unifica e derruba todas as barreiras culturais, raciais e até religiosas, como vemos no caso do judeu e do gentio.

→ Chegando agora no capítulo 4, Paulo nos chama a, individualmente, reconhecermos nossa parte neste novo homem, ou corpo de Cristo.

 O apóstolo Paulo primeiramente (Ef 1,2,3) leva à mente daqueles cristãos a compreensão das doutrinas centrais da fé cristã para posteriormente (Ef 4,5,6) exortá-los sobre a praticidade daqueles ensinos.

→ O conhecimento não é um fim em si, mas um meio que nos habilita a vivermos de um modo a glorificar a Deus nas mais diversas áreas da vida ( social, eclesiástica, conjugal ).

v.1
POIS
→ Essa palavra marca a transição da doutrina para a obrigação, do princípio para a prática, da posição para o comportamento.

→ É importante termos em mente que a nossa busca pelo conhecimento de Deus, através do estudo de Sua palavra, não deve ser um fim em si mesmo, ao contrário, deve ser uma fonte a jorrar transbordando Seu amor, Sua misericórdia, Sua justiça, Sua mansidão e Sua paz. Servindo também de ponte, onde aqueles que estão perdidos encontrarão o caminho para a salvação.

❝ Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem, e isso é amor. — Agostinho de Hipona 

PRISIONEIRO NO SENHOR
→ Ao mencionar novamente a sua prisão, Paulo gentilmente relembra os cristãos efésios de que o andar cristão fiel pode ser custoso e que ele havia pagado um considerável preço pessoal por causa de sua obediência ao Senhor.

→ Um exemplo do quanto pode ser custoso a fidelidade cristã pode ser visto através do documentário Espelho dos Mártires onde se conta a história dos mártires cristãos que sofreram intensa tortura no Coliseu de Roma através do império romano.

→ Na perspectiva da Teologia da Prosperidade, a vida do apóstolo Paulo é um total fracasso. Ao invés de adquirir riquezas com sua vida de total obediência ao Senhor, o apóstolo recebeu açoites e prisões.
→ O ministério de Paulo por si só é uma grande refutação a esse ensino demoníaco que tem assolado muitas igrejas. Deus não nos promete riquezas e bênçãos, embora graciosamente Ele possa nos conceder, mas Ele nos deixou a promessa de um novo céu e uma nova terra, onde não há morte, nem pranto, nem dor; deixando claro aos seus discípulos que teríamos aflições, mas também a presença do Consolador.

ANDEIS DE MODO DIGNO
→ Frequentemente, ‘’andar’’ é usado no Novo Testamento para se referir à conduta diária. Assim como Enoque, devemos desfrutar da presença de Deus dia após dia, não apenas um dia da semana.

 ‘’Modo Digno’’ tem a ideia de viver de modo compatível com a posição que a pessoa tem em Cristo. 
→ Traduz uma palavra relacionada à balança. Imaginemos as atitudes, palavras e ações de Deus colocadas num dos pratos de uma balança e as nossas empilhadas no outro prato. Se a nossa vida, como cristãos, deixar de corresponder à vida do Senhor, estaremos vivendo indignamente, de modo ‘’não digno’’ do Senhor. Uma vez que alguém detém o verdadeiro conhecimento, isso necessariamente tem que se manifestar na prática. Aquilo que uma pessoa professa e pensa controla suas atitudes, suas ações, suas escolhas e seus posicionamentos. (Augustus Nicodemus)

CHAMADOS
→ Assim como o Senhor Jesus chamou Lázaro da morte para vida (cf. João 11), Ele continua chamando os seus. Porém, esse chamado envolve não somente uma mudança de posição (reino das trevas –> reino da luz), mas também uma mudança da maneira de se viver. É exatamente àqueles que foram chamados, escolhidos, eleitos que Paulo exorta à viver de modo digno.

→ Existia uma distorção na era primitiva desse conceito. Alguns líderes religiosos ensinavam que como a salvação é pela graça de Deus através do seu chamado – e ,portanto, o pecador não precisa se esforçar para ser salvo através das práticas da Lei – tais pecadores poderiam continuar vivendo como antes, ou seja, poderiam continuar praticando o pecado já que a salvação é pela graça. Esse ensino ficou conhecido na idade média por antinomianismo. Porém, desde cedo encontramos tal ensino sendo refutado nas cartas de Paulo.

Que diremos, então? Permaneceremos no pecado para que a graça se destaque? De modo nenhum. Nós, que morremos para o pecado, como ainda viveremos nele? (Rm 6:1)

→ Sim, não somos salvos pelas práticas da Lei, mas as nossas vidas são regidas pelos princípios de santidade contidos na Lei do Senhor. A fé produz em nós uma regeneração onde se inicia o constante processo de santificação. Onde não há santificação não houve regeneração.

❝ A santificação é progressiva. Se não cresce é porque ela não está viva.❞ — Thomas Watson

Todos nós, com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, que vem do Espírito do Senhor. (2Co 3:18)


v.2
HUMILDADE
→  ‘’Humildade’’ é um termo que não é encontrado no vocabulário latino ou grego dos tempos de Paulo. A palavra grega, aparentemente, foi inventada pelos cristãos, talvez até mesmo pelo próprio Paulo a fim de descrever a qualidade para a qual nenhuma outra palavra estava disponível.

→  A humildade, a virtude mais fundamental do cristão (cf.Tg 4:6), é a qualidade de caráter ordenada na primeira bem-aventurança (cf. Mt 5:3), e descreve a graça nobre de Cristo (cf.Fp 2.7-8).

→  Em todos os impérios a figura do imperador representava o padrão máximo a ser seguido pelo seu exército, seus soldados seguiam seus passos. Da mesma forma, como servos de Cristo devemos espelhar Seu caráter vivendo em plena humildade, assim como Ele humildemente se esvaziou deixando Seu trono, tornando-se homem e submetendo-se à morte de cruz.

MANSIDÃO
→  Mansidão, um produto inevitável da humildade, diz respeito àquele que é manso de espírito e que tem domínio próprio (cf. Mt 5:5; Gl 5:23; Cl 3:12).

LONGANIMIDADE
→  A palavra grega significa, literalmente, resistência, e refere-se à uma paciência resoluta que é uma consequência natural da humildade e da mansidão (cf. 1Ts 5.14 ; Tg 5:10).

SUPORTANDO-VOS UNS AOS OUTROS
→ Humildade, mansidão e longanimidade refletem-se no amor paciente pelos outros, o qual é contínuo e incondicional (cf 1Pe 4:8).

Antes de tudo, tende profundo amor uns para com os outros, porque o amor cobre um grande número de pecados. (1Pe 4:8)

→ Talvez agora compreendamos porque em algumas igrejas exista tanta falta de amor paciente entre os irmãos, será que existe humildade em seus corações? Humildade primeiramente para reconhecer que são pecadores, humildade para enxergar os seus próprios erros, humildade para ouvir as exortações de seus líderes, humildade para respeitar uma opinião que não seja semelhante à sua, humildade para se colocar no lugar do outro e compreender suas limitações?  Precisamos refletir sobre isso.

→ À medida que Cristo for formado em nós, através do constante processo de santificação e mortificação da carne realizado pelo Espírito Santo, seremos capazes de amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Porém, dificilmente seremos capazes de tamanha graça, se não tivermos uma vida de comunhão com Deus, ou seja, se tivermos uma vida governada pelo pecado. Leitura devocional e  vida de oração são elementos indispensáveis para aqueles que verdadeiramente desejam mortificar dia após dia a carne, e somente assim receberemos corações humildes, puros.

v.3
UNIDADE DO ESPÍRITO
→ A união concedida pelo Espírito a todos os cristãos verdadeiros criou um laço de paz, um cordão espiritual que envolve e junta o povo santo de Deus. Esse laço é o amor.

Acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. (Cl 3:14)

vs. 4 – 6
→ Nessa passagem, Paulo lista as áreas particulares da união, ou da unidade: o corpo, o Espírito, a esperança, o Senhor, a fé, o batismo, e Deus, o Pai. Ele concentra-se na Trindade – o Espírito no v.4, o Filho no v.5 e o Pai no v.6. Seu objetivo não é fazer distinção entre as pessoas da divindade, mas enfatizar que, apesar dos papéis diferentes que exercem, eles estão totalmente unidos em todos os aspectos da natureza e do plano divinos.

v.4
UM CORPO
→ A igreja, o corpo de Cristo, é composta de todos os cristãos desde o Pentecostes, sem distinção, pela obra de ‘’um só Espírito’’ (cf. 1Co 12.11-13).


→ A igreja é um corpo, não um membro. Somos chamados para viver em comunidade, onde pela graça de Deus os dons são derramados e a Sua presença se faz presente. É dentro da comunidade cristã através dos nossos relacionamentos, que Deus nos molda, nos usa, nos consola, nos fortalece. E é também ali que nós O adoramos, O louvamos e O glorificamos. Não fomos chamados para vivermos sós, fomos chamados para fazer parte de um corpo.

❝  Não é possível levar uma vida cristã sem um grupo de amigos cristãos, sem uma família de crentes na qual você encontre o seu lugar. — Timothy Keller

NUMA SÓ ESPERANÇA
→ Esse é o penhor e a promessa da herença eterna que todos os cristãos recebem e é selada em cada cristão por um só Espírito.


→ O sobrenome de todo cristão é ‘’peregrino’’. Não pertencemos a este mundo, não vivemos de acordo com os costumes deste mundo, estamos apenas de passagem, rumo à Nova Jerusalém, essa é a Esperança que nos move e nos consola em meio a um mundo de tanto sofrimento e dor.

UM SÓ BATISMO
→ Diz respeito, provavelmente, ao batismo das águas que se segue à salvação, uma confissão pública do cristão da fé em Jesus Cristo. O batismo espiritual, por meio do qual todos os cristãos são colocados no corpo de Cristo, está implícito no v.4.

v.6
UM SÓ DEUS
→ Essa é a doutrina básica de Deus ensinada ao longo de toda a Escritura (cf. Dt 4:35 ; Is 45:14 ; 1Co 8.4-6)

→ Foi exatamente por adorar a outros deuses que a nação de Israel foi duramente disciplina por Deus através do cativeiro Babilônico.

→ Como bem disse João Calvino ❝ O coração do homem é uma fábrica de ídolos❞. Nos iludimos ao pensar que a idolatria se resume em apenas adorar um deus feito por mãos humanas, pois ,de acordo com  o ensino das Escrituras, qualquer coisa que ocupe o lugar de Deus em nossos corações se torna um deus e dessa forma nos tornamos idólatras.
→ Exemplificando: onde está a sua confiança em Deus ou no dinheiro? Onde está o seu prazer em Deus ou nas vaidades do mundo? Em que você se gloria em Deus ou no seu status social? Quanto tempo do seu dia a dia você consagra a Deus? O que tem ocupado os seus pensamentos?

 Me diga o que ocupa a sua mente e eu te direi quem é o seu Deus.
  Paul Washer

Fontes
● Bíblia de Estudo MacArthur
● Bíblia de Estudo Palavras Chave
● Russell Shedd & Dewey Mulholland – Epístolas da Prisão, Editora