Análise de Efésios 2.1-10

 
→ O capítulo 2 é uma exposição do versículo ‘’a suprema grandeza do seu poder para conosco’’ Ef 1:19. Então, com essa ideia em mente, leiamos este capítulo que se divide claramente em duas partes: a primeira, falando da nossa situação de onde Deus nos resgatou (Ef 2.1-10) e a segunda parte, nossa situação social, o novo povo de Deus, a igreja (Ef 2.11-22) – Russell Shedd.

VIVIFICADOS EM CRISTO (v.1-10)
→ Esses versículos apresentam de modo condensado o que Paulo expôs detalhadamente em Romanos 1–8, isto é, que pela graça de Deus por meio da fé, Deus dá vida espiritual e habilidade moral para pecadores desamparados, libertando-os da condenação futura e fazendo com que eles vivam corretamente por Ele.

v.1
MORTOS NOS VOSSOS DELITOS E PECADOS
→ ‘’ A primeira palavra que Paulo usa para descrever a situação do pagão, do incrédulo sem Cristo, é a palavra morte ( νεκρος nekros ): mortos em delitos e pecados. Esta palavra, para descrever o pecador, à primeira vista não parece ter sido bem escolhida, porque o incrédulo aparentemente não está morto: ele tem raciocínio, tem capacidade de entender, inclusive palavras da Bíblia. Ele pode repetir nomes como ‘’Cristo’’. Ele sabe algo da história de Jesus; aparentemente ele não está morto, como parece a palavra escolhida por Paulo.
Mas ao entendermos a razão pela qual Paulo escolheu essa palavra, começamos a perceber que a Bíblia coloca o pecador em situação bem diferente da que talvez nós atribuiríamos a ele. Porque a ideia de morte (que talvez tenha surgido na condenação de Adão e Eva em Gênesis 3: ‘’no dia em que comeres deste fruto, morrerás’’) carrega em si  profundas realidades sobre a situação moral e espiritual do homem sem Deus.

→ Primeiramente, a pessoa morta não pode se movimentar, ela está totalmente inerte e perde por completo aquilo que chamamos de personalidade. Há algumas poucas semanas atrás, um amigo nosso morreu num desastre de automóvel: pai e filho. Quando a viúva foi ver o corpo, aquele homem que havíamos conhecido tão bem estava totalmente incapacitado de se comunicar conosco, e nós com ele. Tanto faz falar com um cadáver, como falar com o chão, ou um piano, ou com qualquer outra parte do universo não pessoal.

→ A primeira ideia de morte me parece ser esta: a incapacidade de comunicação, de movimentação, de aproximação. A incapacidade de reagir, de corresponder. É Deus falando ao homem, e o homem não escutando coisa alguma, não respondendo, não reagindo, mas continuando no seu próprio caminho, como se Deus não existisse.

→ Esse é o estado natural do homem, o que o apóstolo Paulo também chama de ‘’homem natural’’, quando não existe nenhuma capacidade de se compreender sobre as coisas espirituais vindas de Deus. É necessário um sopro de vida, um novo nascimento, algo sobrenatural, uma regeneração realizada pelo Espírito de Deus tornando o homem natural num homem espiritual, capaz de compreender das coisas espirituais vindas do Espírito de Deus.

O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois lhe são absurdas; e não pode entendê-las, pois se compreendem espiritualmente. (1Co 2:14)
→ Em segundo lugar, o corpo ao perder a vida começa a se decompor. A situação do homem sem Deus é uma situação de decomposição, não no sentido apenas de mau cheiro, mas de que a integração da sua pessoa, da sua personalidade, está se perdendo tanto quanto a de um cadáver, que depois de alguns anos não será nada mais que pó e alguns ossos espalhados. O homem sem Deus está se decompondo. A sociedade humana se decompõe, quando se separa de Deus’’ – Russel Shedd.

→ Para termos uma maior compreensão sobre a realidade do estado do homem morto espiritualmente, podemos observar três imagens bíblicas: um vale de ossos secos, a morte de Lázaro e um coração de pedra.
 A primeira imagem se encontra em Ezequiel 37.1-10, onde ‘’a mão do SENHOR veio sobre mim; ele me levou pelo Espírito do SENHOR a um vale cheio de ossos – v.1’’
Assim como Deus mostrou a Ezequiel um vale de ossos secos, totalmente sem vida, Ele hoje nos revela através da sua palavra que não existe vida alguma no homem longe da presença de Deus, pois estão mortos em delitos e pecados.

 A segunda imagem se encontra em João 11.1-44, onde lemos sobre a morte e ressurreição de Lázaro. Esse acontecimento ilustra o estado em que se encontra todo homem que ainda não foi vivificado pelo Espírito Santo de Deus.
Assim como Lázaro estava morto e totalmente impossibilitado de ir até Jesus, assim é o homem morto espiritualmente. É Deus que, em sua infinita misericórdia, vai até o morto e o vivifica, assim como Jesus nessa passagem foi até Lázaro e lhe concedeu vida pelo poder vivificador da Sua palavra ‘’Lázaro, vem para fora! v.43’’.

 A terceira e última imagem que podemos observar encontra-se em Ezequiel 36.22-26, onde Deus através do profeta Ezequiel se manifesta ao seu povo prometendo-lhes  além do retorno para Terra Prometida um ‘’coração novo’’, dizendo: ‘’tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne – v.26’’. Coração de pedra representa o estado do homem natural, sem vida. Já o coração de carne representa o homem espiritual, regenerado, que é capacitado a pulsar pelo seu Deus, rendendo Lhe todo fôlego de vida, assim como a corça que anseia pela corrente das águas.

→ Não existe amparo bíblico para dizermos que o homem vai até Deus e então é salvo. Nesses três exemplos, podemos perceber nitidamente que é Deus quem vai ao encontro do pecador transformando sua natureza, capacitando-o a responder ao chamado do Seu criador. Através da Sua poderosa palavra, Deus traz o morto à vida.

v.2
ANDASTES OUTRORA
→ Depois de uma guerra, para punir os povos que se rebelavam contra Roma, fazia-se uma corrente e algemavam, pelos pescoços ou pelas pernas, centenas de presos para levá-los às cidades do império romano como escravos.
Normalmente não se pensa em mortos andando, mas nesta figura de Paulo eles andam, porém, é um andar pressionado, um andar de presos.

→ Aqui não há dúvidas de que aquela igreja já não mais praticava o que praticava antes de ouvir o Evangelho da salvação. ‘’Outrora’’, define bem o passado de todo cristão, as velhas práticas, os velhos costumes, a velha natureza. Se alguém se diz discípulo de Cristo mas continua a viver como sempre viveu: amando o mundo, sem vida de oração, sem prazer pela palavra de Deus, em desobediência aos preceitos éticos estabelecidos pela palavra de Deus; então, é bem provável que essa pessoa tenha sofrido uma falsa conversão, pois ‘’os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne juntamente com suas paixões e desejos – Gl 5:24’’.

‘’ Qualquer um que diz que Deus o salvou e continua a viver como vivia antes, eu pergunto: Deus o salvou de quê? ’’ – Paul Washer

SEGUNDO O CURSO DESTE MUNDO
→ Diz respeito à ordem do mundo, ou seja, aos valores e padrões da humanidade à parte de Deus e de Cristo. Em 2Co 10.4-5, Paulo menciona essas ideologias como sendo fortalezas nas quais as pessoas estão aprisionadas, necessitando serem libertas e levadas cativas a Cristo e em obediência à verdade.

→ Que comunhão pode haver entre a igreja de Cristo e o mundo? Os filhos da luz devem resplandecer sobre as trevas como o sol resplandece sobre o abismo.

Se dissermos que temos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. (1Jo 1: 6)

Não ameis o mundo nem o que nele há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.  Porque tudo o que há no mundo, o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa, bem como seus desejos; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.
(1João 2.15-17).

→ No livro O PEREGRINO, escrito por John Bunyan, temos o relato de uma cidade onde existia uma feira, chamada feira da vaidade. Ali se vendia de tudo e todos os moradores, tanto daquela cidade como das cidades vizinhas, banqueteavam-se com os produtos daquela feira. Não existia nada de valor, apenas vaidade. Tudo era vaidade! E Cristão, juntamente com seu amigo chamado Fiel, foram condenados justamente por não seguirem os costumes daquela cidade. Assim deve ser o viver de todo servo do Senhor aqui na terra, uma vida fundamentada não nos costumes deste mundo, mas sim na palavra e nos preceitos éticos de Deus.

SEGUNDO O PRÍNCIPE DA POTESTADE DO AR
→ O general conquistador, que andava na frente desta longa fila de escravos, aqui é descrito como Satanás, o príncipe deste mundo, que através da sua força enganadora cria na mente humana o desejo de adorar todos os deuses, que afinal lhe serão submissos, em vez de um único Deus.
→ Esses escravos estão seguindo aquele triunfante príncipe do mundo para seu destino, o próprio inferno.

POTESTADE DO AR
→ Descreve a sua invisibilidade; ele é invisível, e ao mesmo tempo, descreve a incapacidade de fugirmos dele. Não há  nenhum mosteiro, nem igreja, não há local onde não se sinta a força do seu domínio e da sua sedução, porque acima de tudo ele é o pai da mentira e o pai da sedução (cf. Jo 8:44).

v.3

SEGUNDO AS INCLINAÇÕES DA NOSSA CARNE
→ Eu imagino que, na maioria, aqueles escravos, vindo das fronteiras, não andavam tão felizes, mas vinham chorando, tristes, sofrendo; vinham na infinita miséria. Porém, não é esse o caso do homem pecador sem Deus. Ele é como o jovem escravizado às drogas, ou como o dependente de álcool, que, ainda que seja escravo, gosta dessa escravatura, principalmente quando está se escravizando ainda mais – Russel Shedd.

→ ‘’Segundo as inclinações’’, a palavra no original é simplesmente ‘’os desejos da própria pessoa’’. Ele é um escravo satisfeito, enquanto puder se escravizar cada vez mais, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos.
→ Por isso é necessário uma intervenção divina, um agir da graça de Deus, que vem e salva o pecador, mudando os seus desejos, libertando-o das correntes do pecado.

v.5
NOS DEU VIDA JUNTAMENTE COM CRISTO
→ A nossa morte em pecado é cancelada pela mesma força que cancelou o poder que deteve Jesus na pedra daquele túmulo que abrigou o nosso Senhor crucificado.
→ Mais do que qualquer outra coisa, uma pessoa morta espiritualmente precisa ser vivificada por Deus. A salvação traz vida espiritual ao morto. O poder que ressuscita os cristãos é o mesmo poder que ‘’energiza’’ todos os aspectos da vida cristã.

Considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.
Portanto, não reine o pecado em vosso corpo mortal, a fim de obedecerdes aos seus desejos. Tampouco apresenteis os membros do vosso corpo ao pecado como instrumentos do mal; mas apresentai-vos a Deus como vivificados dentre os mortos, e apresentai os membros do vosso corpo a Deus como instrumentos de justiça. (Rm 6.11-13)

v.6
JUNTAMENTE COM ELE NOS RESSUSCITOU
→ Este poder da ressurreição é uma força que transforma, do interior para fora, todo o nosso ser. Quando Agostinho, depois de lutas difíceis para vencer as forças e paixões da sua carne, depois da sua conversão, estava sendo chamado por sua amante, do outro lado da rua: ‘’Vem Agostinho! Agostinho, aqui estou’’; ele disse: ‘’Mas eu não estou aqui!’’.
Agostinho havia recebido uma nova natureza (regeneração) que o capacitava a não mais satisfazer os desejos da carne.

Pois, pela lei, eu morri para a lei, a fim de viver para Deus. Já estou crucificado. Portanto, não sou mais eu quem vive, mas é Cristo quem vive em mim. E essa vida que vivo agora no corpo, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. (Gl 2.19-20)

→  O que é dito do Redentor também pode ser dito do redimido. O que aconteceu historicamente a Jesus também aconteceu aos crentes de uma maneira misteriosa, espiritual.
Assim como Cristo foi crucificado, morto e sepultado, assim acontece com a velha natureza do redimido. De igual forma, ocorre a ressurreição, o novo nascimento.

→ Há uma experiência paralela no interior da pessoa: uma mente renovada (cf. Rm 12.1-2; Ef 4.23-24; Cl 3:10), uma nova identidade como filhos e filhas de Deus (Rm 8.14-17) e uma nova habilidade para viver de acordo com a natureza de Deus, livre do controle do diabo (Rm 8.1-4 ; 2Co 5:17).

NOS FEZ ASSENTAR NOS LUGARES CELESTIAIS EM CRISTO JESUS
→   Desse trono emana toda a força que conquista o pecado, a morte, a força satânica, e a ira de Deus. Este poder está todo aí ao nosso alcance porque Cristo venceu todas essas forças escravizadoras. Ele foi identificado com o nosso pecado, sendo que Deus o fez pecado por nós (2Co 5:21).
LUGARES CELESTIAIS
→  Essa esfera espiritual é onde as bênçãos dos cristão estão, onde está a herança deles (1Pe 1:4), onde os sentimentos deles devem estar (Cl 3:3) e onde eles desfrutam da comunhão com o Senhor. É a esfera de onde toda revelação divina provém e para onde vão todo o louvor e todas as petições.

v.7
RIQUEZA DA SUA GRAÇA
→  Não há dúvida de que a salvação é, em grande parte, para a bênção do cristão; porém, é ainda mais para o propósito da glorificação eterna de Deus por conceder aos cristãos sua graça e sua bondade, que são infinitas e ilimitadas. Todo o céu o glorifica pelo que ele fez em salvar pecadores (cf. Ap 7.10-12)

v.8
MEDIANTE A FÉ
→  John Wesley, que talvez tenha sentido bem mais do que nós o poder do pecado em sua vida, a força da morte no seu ser, procurou por todos os meios encontrar a saída, mesmo depois de ser missionário na Geórgia; mas não encontrava a resposta. ‘’Como posso compartilhar dessa vitória? Como posso sentir a força da ressurreição em minha vida? Como posso ter vida juntamente com Cristo?’’ E ninguém conseguia explicar-lhe. Ele perambulava cada vez mais desesperado, sentindo que teria de deixar o ministério (ele já era ordenado, servia e pregava, mas não sentia essa vitória). E um dia, num pequeno recinto na Rua Aldersgate, em Londres, ouviu umas palavras de introdução de Romanos, escritas por Lutero, que diziam que a fé é a operação de Deus em nós. E ele sentiu, naquele instante: ‘’Fé é Deus falando em mim, é Deus apelando para si mesmo, através de mim. É Deus levantando a minha mão para receber aquilo que ele quer me dar’’.  E naquele instante ele caiu de joelhos e empolgou toda aquela reunião com a declaração de que, agora sim, ele entendia o que era fé!

A fé é o meio pelo qual o pecador de mãos vazias recebe o dom da salvação oferecido por Cristo Jesus através de Sua morte expiatória e substitutiva na cruz do calvário.

ISTO NÃO VEM DE VÓS
→ ‘’Isto’’ refere-se a toda a afirmação anterior a respeito da salvação, não somente da graça, mas da fé. Embora as pessoas tenham que crer para serem salvas, até mesmo essa fé é parte do dom de Deus, a qual salva e não pode ser exercida pelo poder da própria pessoa (não existe força num cadáver). A graça de Deus é preeminente em todos os aspectos da salvação.

v.10
POIS SOMOS FEITURA DELE
→ O que significa essa nova situação em que nos encontramos, salvos em Cristo?
A palavra utilizada por Paulo é feitura, no original significa poema, ou ‘’obra de arte’’. De forma semelhante a um artista que está pintando um quadro e reflete nele algo da sua personalidade, Deus está trabalhado em nós. A palavra ‘’poema’’ me parece ter a ideia de Deus tomando pecadores  perdidos e colocando-os na nova criação, a sua obra de arte: criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. As boas obras que a igreja, como feitura de Cristo, precisa produzir são a atuação de Cristo, através de nossos corpos, de nossas mentes, no mundo perdido.

→ As boas obras não podem gerar a salvação, mas são subsequentes e resultam dos frutos concedidos por Deus.

Fontes
● Bíblia de Estudo MacArthur
● Bíblia de Estudo Palavras Chave
● Programa The Word
● Russell Shedd & Dewey Mulholland – Epístolas da Prisão, Editora Vida Nova