A Graça de Deus e o Viver Cristão

Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo.
| Filipenses 1:27
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Observando os escritos do apóstolo Paulo às igrejas espalhadas pela Ásia Menor na era primitiva, notamos duas ênfases em seus ensinos: levá-los a compreender o plano da salvação de Deus e o modo como deveriam viver diante de tamanha salvação. Porém, infelizmente, em nossos dias, muitos líderes religiosos enfatizam demasiadamente apenas o modo como Deus nos salvou – pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. (Ef 2:8) – sem dar a mesma ênfase no que necessariamente essa salvação faz em nós (transformação) e gera em nós (frutos de justiça) . Diante disso, tem surgido um grande números de cristãos que exclamam orgulhosamente ‘’SOU SALVO PELA GRAÇA’’, mas continuam a viver como sempre viveram ‘’no caminho deste mundo’’ (Ef 2:2), esquecendo-se de que aqueles que foram salvos pela graça de Deus, foram igualmente chamados para a prática de boas obras (testemunho) diante de um mundo em trevas. Logicamente que o nosso testemunho pessoal não tem poder algum de salvar alguém, porém, sem dúvidas, é um meio de conduzir outras pessoas àquele que tem poder para salvá-las.

Da mesma forma que devemos louvar a Deus por tamanha obra de salvação operada em nós, devemos viver de um modo a glorificá-lo. Assim como ensinou sobre a graça de Deus, eleição, predestinação, Paulo também exortou às igrejas a viver de modo digno do evangelho diante das sociedades pagãs daquela época. O fato de compreendermos que fomos salvos pela graça de Deus, deveria nos levar a viver de um modo a glorificar Deus. Porém, essa não é a realidade presente em muitas igrejas, dá-se claramente uma grande ênfase na compreensão das doutrinas da graça, porém pouquíssima importância à prática do viver santo igualmente ensinado nas Escrituras.
É bom lembrarmos que no período da Reforma foi enfatizado não somente o Sola Scriptura, mas também o Tota Scriptura. Vejamos algumas exortações do apóstolo Paulo aos cristãos de sua época, que também servem para nós:
>> ‘’Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados.’’ (Efésios 4:1)
>> ‘’Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados.’’ (Efésios 5:1)
>>‘’Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios.’’(Efésios 5:15)
>>‘’Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo.’’ (Filipenses 1:27)
>>‘’Portai-vos com sabedoria para com os que são de fora; aproveitai as oportunidades.’’ (Colossenses 4:5)
>> ‘’Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre vós e por amor de vós.’’ ( 1Tessalonicenses 1:5)
>> ‘’Exortamos, consolamos e admoestamos, para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória.’’ (1Tessalonicenses 2:12)
>> ‘’Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fieis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.’’ (1Timóteo 4:12)
>> ‘’Eles afirmam que conhecem a Deus, mas o negam por suas obras.’’ (Tito 1:16)
Nessas passagens podemos observar a ênfase que era dada pelo apóstolo Paulo quanto à importância de não somente se compreender com a mente o que era a salvação, mas principalmente de se colocar em prática as exigências estipuladas por tamanha salvação: vivei de modo digno do evangelho. Uma das mais belas obras da literatura cristã chama-se ‘’O Peregrino’’ escrita por John Bunyan no século 17. O capítulo 14 dessa obra cujo título é ‘’A Feira da Vaidade e o Martírio de Fiel’’ retrata bem o contraste que há entre um verdadeiro cristão e uma sociedade em trevas. Cristão e Fiel são dois personagens dessa obra, eles estão indo em direção à Cidade Celestial e no caminho existe uma cidade chamada Vaidade, e lá também existe uma feira, conhecida como ‘’A Feira da Vaidade’’ onde é vendido emprego, esposa, marido, status, prostituição, orgulho, etc; tudo aquilo que o mundo pode oferecer.
Em determinado trecho dessa obra, está o relato do momento em que Cristão e Fiel chegam na Feira da Vaidade, e diz assim: ‘’Ao entrarem na feira, todas as pessoas dali foram despertadas, e a própria cidade permaneceu como se estivesse tumultuada, em volta deles; isto, por vários motivos. Primeiro: os peregrinos estavam vestidos com um tipo de vestimenta diferente da roupa de qualquer pessoa que negociava ali. Segundo: também se admiravam de sua fala, porque poucos podiam entender o que diziam. Terceiro: os vendedores não achavam nada divertido que estes peregrinos considerassem desprezíveis todas aquelas mercadorias’’ (John Bunyan – O Peregrino, Editora Fiel, p.156-157).
É interessante o contraste que é abordado por John Bunyan, Cristão e Fiel não tinham nenhuma semelhança (fala, vestimenta, preferências) com os moradores daquela cidade. A cidade chamada de Vaidade representa este mundo, e os seus moradores representam todos aqueles que estão presos nos seus delitos e pecados. Já Cristão e Fiel simbolizam todos os fieis servos de Deus, que são peregrinos neste mundo e são cidadãos da Cidade Celestial, a Nova Jerusalém. Essa deve ser a realidade de todos aqueles que foram verdadeiramente salvos pela graça de Deus, o modo como vivem destoa completamente da maneira como vivem aqueles que ainda não se renderam ao Senhor como Salvador de suas vidas. Certamente que se praticarmos o que eles praticam, nos engamos, e ainda estamos presos em nossas transgressões, por mais que digamos com os lábios ‘’SOU SALVO PELA GRAÇA’’. Assim disse o Senhor Jesus: ‘’Nem todo o que me diz Senhor, Senhor! entrará no reino do céu, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está no céu’’ (Mt 7:21).
Não existe valia em dizer com os lábios ‘’Senhor, Senhor’’ se ainda vivemos em desobediência à palavra de Deus. Sim, somos salvos pela graça, mediante a fé, e isto não vem de nós, é um presente dado por Deus, o qual recebemos de mãos vazias, mas devemos igualmente nos lembrar de que se realmente fomos alcançados por essa graça, fomos selados com o Espírito Santo de Deus, e ,consequentemente, passaremos a viver, um viver Santo, que glorifique a Deus, caso contrário, não fomos alcançados por esta graça, apenas nos escondemos por trás de tamanha salvação, tornando a graça de Deus em libertinagem (cf.Judas 4), como fizeram os antinomianistas.

Em Cristo, Renato Garcia.