A Parábola do Filho Pródigo: um diálogo entre Jesus e os religiosos

Desde o Antigo Testamento, notamos repetidas exortações do Senhor através de seus profetas ao povo de Israel quanto aos perigos da religiosidade. Agora, já no período neotestamentário, encontramos um relato em que o próprio Deus encarnado, na pessoa de seu Filho, desenha para os religiosos de sua época um quadro descrevendo o contraste entre o pecador arrependido e o hipócrita religioso, este é o propósito da parábola do filho pródigo.

A parábola do Filho Pródigo é uma das mais conhecidas até mesmo fora do ciclo religioso, porém seu ensino é gravemente distorcido devido à incorreta interpretação do texto. Uma pergunta básica a ser feita é: o que levou Jesus a proferir essa parábola? Para obter essa resposta, devemos olhar o contexto em que se encontra o texto. A história começa nos três primeiros versículos do capítulo 15 do evangelho de Lucas onde lemos ”aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas dizendo: Este recebe pecadores e come com eles. Então, lhes propôs Jesus esta parábola” (Lc 15.1-3). Devido ao envolvimento de Jesus com publicanos e pecadores, os conhecedores da lei começaram a murmurar fazendo com que o Mestre lhes contasse uma série de três parábolas (ovelha perdida, dracma perdida e filho pródigo). Não podemos deixar passar desapercebido que todas essas parábolas foram direcionadas aos escribas e fariseus, não para os publicanos e pecadores.

Havia entre os fariseus e escribas um senso de superioridade em relação aos gentios, eles gabavam-se por serem descendência de Abraão, por serem circuncidados, como se esses elementos lhes garantisse a salvação, Assim, ao notarem no ministério daquele que se dizia o Messias uma proximidade com os leprosos. publicanos e samaritanos, eles ficaram indignados, pois a religião havia lhes endurecido o coração e apagado o amor.

Observemos o relato contigo no Evangelho de Marcos: ”Aproximando-se Jesus à mesa na casa de Levi, estavam juntamente com ele e com seus discípulos muitos publicanos e pecadores; porque estes eram em grande número e também o seguiam. Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos, perguntavam aos discípulos dele: Por que come ele com os publicanos e pecadores? Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores” (Mc 2.15-17). Sentar-se à mesa para uma refeição significava comunhão. Nessa passagem fica evidente o contraste entre o propósito do ministério de Jesus (“não vim chamar justos, e sim pecadores”) e a indignação dos religiosos (”por que come ele com os publicanos e pecadores”). Eis o motivo pelo qual o Mestre conta três parábolas à elite religiosa: fazer com que compreendam que há alegria no céu todas as vezes que um pecador (publicano, samaritano, leproso, fariseu, escriba, eu, você, etc..) se arrepende.

A parábola da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo possuem uma lição em comum: o que estava perdido foi encontrado e isso é motivo de alegria. Podemos notar também pequenas pegadas da graça de Deus nessas passagens, pois não é o perdido que se encontra, ele é encontrado. Não havia nenhuma condição da ovelha perdida ir ao encontro do seu pastor, é o pastor que busca incansavelmente sua ovelha. De igual forma ocorre com a dracma perdida. Não foi o Filho Pródigo que correu ao encontro do Pai, foi o Pai que correu ao seu encontro. ”Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2:8). Mas há um elemento que diferencia a Parábola do Filho Pródigo das demais. Nessa história, existe um personagem que não se alegra ao saber que aquele que estava perdido foi encontrado, e é exatamente nesse momento que os religiosos entram na história.

Assim como uma mancha sobre vestes brancas pode ser vista com mais facilidade ao ser colocada sobre intensa luz, o Senhor descreve a imagem do pior dos pecadores (Filho Pródigo) para realçar o seu imenso amor ao perdoar (Pai) com a hipocrisia daqueles (Filho mais velho) que diziam amar tanto o Pai, mas que não se alegravam junto com o Pai ao perdoar os pecadores.

Imaginemos uma espiral do pecado em que o primeiro círculo se inicia com um pedido ”pai, dá-me a parte dos bens que me cabe” (Lc 15:12b). Em outras palavras, aquele filho estava expressando para seu pai que não o amava e que desejava tão somente a sua herança, o que lhe seria por direito somente após a morte de seu pai. Continuando seu ciclo, o jovem ”partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente” (Lc 15:13b). Uma terra distante representa um lugar habitado por gentios, o que era visto como abominação para os judeus, Além de se afastar da ”terra santa”, aquele jovem entregou-se à imoralidade, satisfazendo todos os seus desejos.
Agora surge uma imagem que certamente deixou os fariseus e escribas ainda mais escandalizados, aquele jovem judeu passa a ”cuidar de porcos” (Lc 15:15c). Na cultura judaica, os porcos simbolizam impureza, contaminação. Só havia uma coisa pior do que cuidar de porcos: desejar a comida dos porcos. E era exatamente esse o estágio que se encontrava aquele jovem, ele ”desejava fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam” (Lc 15:16). Diante dessas informações, o Mestre desenha cuidadosamente para os religiosos a imagem do pior dos pecadores, o mais abominável.

Mas a história prossegue dizendo que aquele jovem ”caindo em si” (Lc 15:17) volta para o seu Pai, reconhecendo que não era digno de ser chamado de filho. Martyn Lloyd Jones diz que a principal diferença entre um pecador arrependido e um pecador com remoço, é que o pecador arrependido vai ao encontro daquele que ofendeu, já o pecador com remoço se distancia mais e mais.
Até aquele momento, o jovem pródigo estava vivendo fora de si na ilusão do pecado, mas ao cair em si voltou à sobriedade e passou a enxergar-se como pecador e ao pai como benfeitor. Uma das obras mais extraordinárias do Espírito Santo é tornar belo para nós aquilo que odiávamos (o Pai) e nos fazer odiar aquilo que tanto amávamos (o pecado) .
Qual seria agora a reação do pai ao receber seu filho que de maneira tão desrespeitosa lhe pediu parte da herança e partiu para uma terra distante? Qual será a melhor forma de punir aquele que humilhou publicamente diante de todo o vilarejo a honra de seu pai e de sua família? Certamente essas perguntas ecoavam nas mentes dos escribas e fariseus. E para o espanto de todos, a história prossegue dizendo que ”vindo ele ainda longe, quando seu pai o avistou, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou” (Lc 15:20). Essa é a mais perfeita imagem da graça de Deus ao perdoar o pecador, graça sobre graça!

Aquele pai amava tanto seu filho que aguardava o seu retorno dia após dia, por isso logo o avistou quando ele ainda estava longe. Ao vê-lo, não esperou que o jovem chegasse ao vilarejo, fosse punido e humilhado para depois ser perdoado. Aquele pai simplesmente correu ao encontro de seu filho. Naquela cultura oriental, um homem de honra jamais corria. Correr era sinônimo de humilhação. Aquele pai sabia a maneira como seu filho seria recebido por seus conterrâneos e os graves danos que ele poderia sofrer. Assim, impulsionado pelo imenso amor que tinha por ele, humilhou-se e correu tomando sobre si a vergonha que cabia ao seu filho. Ele se humilhou para que seu filho não fosse humilhado. Notamos aqui a mensagem da cruz: Cristo se fez maldito, para remover a nossa maldição. ”Cristo nos resgatou da maldição da lei, tornando-se maldição em nosso favor, pois está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em um madeiro” (Gl 3.13).

O pai amoroso não somente correu ao encontro de seu filho pecador, mas o abraçou e o beijou. Suas vestes imundas não formaram uma barreira contra o amor de seu pai. Posteriormente, aquele filho amado recebeu vestes limpas, sandálias nos pés e um anel, elementos que representavam o total perdão. Qual foi a boa obra que aquele jovem fez para ser perdoado? Nenhuma! O Senhor desejava que a elite religiosa compreendesse que a salvação de um pecador não depende de sue mérito, mas unicamente da graça de Deus.

Nessa altura da história, surge então a figura do irmão mais velho, que representava a classe dos religiosos. Seguindo a sequência das parábolas, o texto nos diz que houve júbilo no céu pela ovelha e dracma que estavam perdidas e foram encontradas, porém no relato do filho pródigo surge um personagem que não se alegra com a notícia de que aquele que estava perdido foi encontrado. E para o espanto de todos esse é justamente o filho que nunca saiu de casa e que disse ao seu pai ”há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos” (Lc 15:29). Como o filho pródigo, o filho mais velho não amava verdadeiramente o seu pai, tudo o que ele tinha feito todos aqueles anos era com a intenção de ser recompensado, não como expressão de amor. Esse era exatamente o sentimento que estava presente no coração dos escribas e fariseus, eles achavam que devido as suas boas obras deveriam ser recompensados por Deus e assim serem salvos. Eles observavam a Lei de Deus não por amor à santidade de Deus, mas com o intuito de conquistar a salvação.

Foi com esse propósito que Jesus lhes contou essas parábolas, para que eles compreendessem que há júbilo no céu por cada pecador que se arrepende e que à semelhança daquele filho mais velho, que apesar de nunca haver saído da casa de seu pai era tão pecador quanto seu irmão mais novo, os escribas e fariseus ainda não amavam verdadeiramente a Deus, apesar de estarem envolvidos com os elementos religiosos do templo. Assim, devemos ter esse panorama em mente: o amor infinito do Pai que perdoa o mais vil pecador gerando júbilo no céu e indignação entre os religiosos. Nosso genuíno amor por Deus fará com que nos alegremos toda vez que um pecador se arrepender, caso contrário, seremos meros religiosos.

Em Cristo, Renato Garcia
Revisão, Nádia Garcia