E o Princípio Regulador do Culto?

Diante de tantas conferências, congressos e festividades promovidos em nossas igrejas, uma pergunta importante a se fazer é: podemos cultuar a Deus da nossa maneira? Deus requer dos seus adoradores que simplesmente o adorem ou que o adorem da maneira como Ele estabeleceu que o adorassem?

O termo
Princípio Regulador do Culto surgiu no século XVII através das confissões de fé adotadas pelas igrejas reformadas daquele período. Principalmente pela Confissão de Fé Batista de 1689 e pela Confissão de Fé de Westminster.
O capítulo 22 da CFB 1689, parágrafo 1, diz o seguinte:

‘’
A luz da natureza mostra que existe um Deus, que tem senhorio e soberania sobre todos, que é justo, bom, e faz o bem a todos; e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido, de todo o coração, de toda a alma, e com todas as forças. Mas a maneira aceitável de se cultuar o Deus verdadeiro é aquela instruída por Ele mesmo, e que está bem delimitada por sua própria vontade revelada, para que Deus não seja adorado de acordo com as imaginações e invenções humanas’’.
Lendo esse trecho da confissão, podemos absorver algumas verdades: existe um único Deus que é bom, justo, santo e que deve ser temido, amado, servido e adorado, porém, não deve ser adorado de acordo com as imaginações e invenções humanas, mas sim de acordo com a Sua vontade que Ele mesmo delimitou nas Sagradas Escrituras, somente assim seremos capazes de louvá-lo de forma agradável, de modo aceitável. Caso contrário, toda a nossa adoração será vã.
A expressão ‘’que está bem delimitada por sua própria vontade revelada’’ é a que melhor define o que comumente ficou conhecido pelos reformadores de Princípio Regulador do Culto, ou seja, o princípio que regula o culto ao Senhor está revelado na Sua palavra, somente na Sua palavra.
Conforme bem expressa o conceito puritano a respeito do culto ‘’o verdadeiro culto é ordenado somente por Deus; o falso culto é algo que Ele não ordenou’.
Um exemplo bíblico desse princípio é a história de Nadabe e Abiú: ‘’Nabade e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR’’ (Lv 10.1-2).
Havia uma prescrição em Êx 30.34-38 sobre o modo como se deveria realizar a oferta de incenso, porém, Nadabe e Abiú ofereceram fogo estranho, o que não havia sido determinado por Deus, por isso tornam-se objetos da ira de Deus, o que serviu de admoestação para os demais sacerdotes para que não se achegassem diante de Deus de maneira irreverente. Numa linguagem contemporânea, podemos dizer que Nabade e Abiú não obedeceram o princípio que havia sido regulado por Deus quanto à maneira que deveriam cultuá-lo através dos sacrifícios.
Porém, nossa natureza adâmica não se conforma facilmente a cultuar a Deus simplesmente da maneira como Ele estabeleceu, nossa natureza carnal anseia em cultuá-lo de maneira inovadora, como bem entendemos, porém, Deus é o Senhor e é Ele quem determinada a maneira como devemos cultuá-Lo, servi-Lo, adorá-Lo. Como Matthew McMahon bem diz em seu artigo sobre o princípio regulador do culto: ‘’ o culto que não está alicerçado pelas Escrituras é chamado de culto da vontade. Em essência, é uma adoração do ego e das coisas que o agradam’’.
Infelizmente, em muitos igrejas contemporâneas o culto que tem sido oferecido a Deus não é o culto santo e reverente conforme descrito nas Sagradas Escrituras, mas sim o culto da vontade, onde não se louva cânticos espirituais que enaltecem os atributos de Deus, mas sim louvores triunfalistas que enfatizam a cura, a libertação, a bênção, a vitória, a liberdade, e tudo mais que infla o ego do homem.
Onde ao invés de se pregar (quando há pregação) de maneira expositiva transmitindo à congregação aquilo que realmente o autor bíblico inspirado por Deus teve a intenção de comunicar aos seus destinatários, pregasse de maneira alegórica, distorcendo completamente o sentido original do texto, fazendo com que toda a congregação seja edificada sobre um falso fundamento, sobre um falso ensino, gerando consequentemente falsos cristãos, falsas conversões, uma falsa igreja.
Como bem disse Paul Washer ‘’um falso evangelho, gera uma falsa conversão’’.
Por isso é importantíssimo que relembremos esse ensino tão valorizado pelos reformadores, pois lamentavelmente, naquele grande dia haverão aqueles que dirão ‘’Senhor, Senhor, nós não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios? Em teu nome não fizemos muitos milagres?’ e o Senhor lhes dirá claramente ‘’Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’’ (Mt 7.22-23).

 

Num âmbito espiritual, o princípio regulador do culto não diz respeito somente à maneira como cultuamos a Deus dentro do templo, mas sim como o cultuamos através das nossas vidas. É necessário que nos avaliemos e vejamos se temos de fato vivido de acordo com a vontade revelada de Deus em Sua palavra. Como Paulo escreve à igreja em Roma: ’Portanto, irmãos, exorto-vos pelas compaixões de Deus que apresenteis o vosso corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional’’ (Rm 12.1).


Basicamente os elementos que compõem o princípio regulador do culto ao Senhor são:
● Oração com ações de graças (cf. Sl 95.1-7)
● Leitura das Escrituras (cf. 1Tm 4:13)
● Pregação da Palavra de Deus (cf. 2Tm 4:2)
● Ensino e advertência através dos Salmos, hinos e cânticos espirituais (cf. Cl 3:16 ; Ef 5:19)
● Devida administração do Batismo (cf. Mt 28.19-20)
● Devida administração da Ceia do Senhor (cf. 1Co 11:26) Todos esses elementos, ou seja, toda a nossa maneira de cultuar a Deus, devem ser observados com temor e reverência. Deus é Santo e requer de Sua igreja santidade.

 

Termino com mais três citações de Mattew McMahon:

‘’O princípio regulador do culto não deve ser deixado de lado porque nós e a cultura contemporânea somos mais fascinados e atraídos pelo entretenimento do que pela adoração a Deus’’.
‘’De acordo com sua palavra, o Senhor Jesus Cristo deu à humanidade não apenas a habilidade de aproximar-se mas também todas as diretrizes pelas quais podemos nos achegar a Deus’’.
‘’Imaginem se Nadabe e Abiú pudessem visitar igrejas contemporâneas, eles cairiam de joelhos e lamentariam amargamente ao reconhecer que seu pecado ainda é praticado, e com grande complacência e aceitação’’.
 
 
Em Cristo, Renato Garcia.