Sim, Eu Estava Lá

Em sua obra ‘’A Cruz de Cristo’’, John Stott, de forma riquíssima, leva-nos a uma reflexão sobre o porquê Cristo morreu por nós e quais os benefícios que a sua morte e ressurreição nos trouxeram. Este sem dúvidas é um livro que ‘’não podemos passar desta vida sem ler’’ como diria o pastor Jonas Madureira. No capítulo 2 dessa obra, Stott nos leva a refletir sobre aqueles que foram os protagonistas da crucificação de Cristo, lembrando-nos que também estávamos lá. Já refletiu sobre isso ? Temos o costume de lermos os relatos nos Evangelhos como se estivéssemos fora da história, mas isso não é verdade. Não somos meros expectadores da morte de Cristo, como se apenas lêssemos os acontecimentos daquela sexta-feira sangrenta, mas todos nós estávamos ali, atuantes, com cada um dos personagens. Stott deixa isso bem claro em sua obra ao citar um antigo cântico ‘’Estavas lá quando crucificaram o meu Senhor?’’ pergunta o cântico espiritual. E devemos responder: ‘’Sim, eu estava lá’. Como ele também bem disse ‘’Antes de começar a ver a cruz como algo feito para nós, que nos leva à fé e à adoção, temos de vê-la como algo feito por nós, que nos leva ao arrependimento’’. Ao lermos os relatos da traição e crucificação do nosso Senhor através dessa ótica, sem dúvidas seremos constrangidos pelo Espírito. Que esse constrangimento nos leve ao arrependimento.

1º Judas Iscariotes ( Amor ao Dinheiro )
Onde tudo começou ? (Do ponto de vista humano). No coração de Judas ! Jesus estava em Betânia, na casa de Simão, quando um bálsamo é derramado sobre a sua cabeça (Mt 26.6-13), o que gerou indignação em seus discípulos já que o valor daquele bálsamo, que estava em um vaso de alabastro, era de 300 denários, o equivalente a 300 dias de trabalho (equivalente a um ano). Daí a narrativa continua dizendo que ‘’um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, dirigiu-se aos principais sacerdotes, para lhes entregar Jesus’’ (Mc 14:10). A ambição no coração de Judas o levou a trair Jesus por 30 moedas de prata, o preço de um escravo. E onde nos enquadramos nessa história ? Será que existe alguma semelhança entre nós e Judas ? Sim! Todas as vezes que priorizamos as riquezas deste mundo é como se estivéssemos crucificando novamente a Cristo, como o autor de Hebreus diz ‘’eles estão crucificando de novo o Filho de Deus e expondo-o à vergonha pública’’ (Hb 6:6). Pois ‘’ninguém pode servir a dois senhores; porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas’’ (Mt 6:24). Paulo também nos adverte que ‘’o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e por causa dessa cobiça alguns se desviaram da fé e se torturaram com muitas dores’’ (1Tm 6:10). Portanto, a não ser que os nossos corações pulsem unicamente pela presença de Deus, corremos o risco de, assim como Judas, amarmos mais este mundo do que o porvir. ‘’Jesus dissera que é impossível servir a Deus e ao dinheiro. Judas escolheu o dinheiro. Muitos outros têm feito o mesmo’’. (John Stott)

2º Os sacerdotes ( Autoridade )
Embora a ambição tenha dominado o coração de Judas, este não foi o único envolvido com a crucificação de Jesus. Judas de imediato foi até aos sacerdotes traí-Lo, tendo em vista que estes já estavam tramando uma maneira de condená-Lo a morte. Mas como surgiu este sentimento já que os sacerdotes eram os responsáveis pelas cerimônias de culto a Deus? Embora eles tenham apresentado inúmeras acusações contra Jesus, nenhuma delas eram verdadeiras. Pois na verdade eles tinham inveja do Senhor, como bem observou Pilatos ‘’ele sabia que o haviam entregado por causa de inveja’’ (Mt 27:18). Tudo começou quando Jesus começou demonstrar o que eles realmente eram, chamando-os de hipócritas, guias de cegos, comparando-os a ‘’sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia’’ (Mt 23:27). Jesus condenou abertamente a religiosidade vivida pelos sacerdotes, o que certamente abalava a autoridade que exerciam sobre o povo. Porém, ao invés de se arrependerem e se voltarem para Deus cumprindo fielmente seus ofícios como sacerdotes, resolveram questionar a autoridade de Jesus, indagando: ‘’com que autoridade fazes estas coias? ou quem te deu tal autoridade para as fazeres?’’ (Mc 11:28), o que o Senhor lhes respondeu com outra pergunta ‘’o batismo de João era do céu ou dos homens? Respondei-me’’ (Mc 11:30), o que os deixou sem respostas, deixando evidente a superioridade do Senhor sobre a deles. Em que nos assemelhamos com os sacerdotes ? Existe alguma semelhança ? Sim! Pois, dá mesma forma que Jesus trouxe à tona suas imundícias, dizendo o que eles realmente eram ‘’hipócritas’’, ‘’guias de cegos’’, Cristo se manifesta a nós, através da sua palavra revelando os nossos pecados dizendo que ‘’todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus’’ (Rm 3:23) e que ‘’Todos se desviaram; juntos se tornaram inúteis. Não há quem faça o bem, nem um sequer’’ (Rm 3:12). Já que todos pecaram e não existe nenhum justo sequer é necessário que recebamos a salvação que vem de Deus aceitando-O como nosso Senhor e Salvador, reconhecendo os nossos pecados e voltando para Ele em genuíno arrependimento, como está escrito ‘’se com a tua boca confessares Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’’ (Rm 10:9). Contudo, o coração não regenerado age como os sacerdotes indagando a Jesus com que autoridade Ele nos ordena que nos arrependamos, com que autoridade Ele nos exige a negarmos a nós mesmos e tomarmos a nossa cruz. A não ser que a graça transforme os nossos corações, continuaremos querendo ser a nossa própria autoridade, satisfazendo os desejos da nossa carne.

3º O povo ( Falsa adoração )
Como bem observou Stott em sua obra ‘’parece que as mesmas multidões que haviam recebido a Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos com grande alegria, dentro de cinco dias estavam em altas vozes pedindo o seu sangue’’ (A cruz de Cristo, p.53). Uma falsa compreensão de Cristo gera uma falsa adoração. O povo imaginava que Jesus iria livrá-los da opressão do Império Romano, por isso clamavam Hosana!Hosana! Eles ainda não haviam compreendido corretamente o papel do Messias. Jesus não veio para livrá-los dos seus problemas sociais, Ele veio para libertá-los dos seus pecados pessoais. Como está escrito ‘‘o ladrão veio somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com plenitude’’ (Jo 10:10). Como bem profetizou Isaías ‘’ele foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas maldades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por seus ferimentos fomos sarados’’ (Is 53:5). Cristo veio para nos conceder salvação através da sua morte, como está escrito ‘’Cristo nos resgatou da maldição da lei, tornando-se maldição em nosso lugar’’ (Gl 3:13). E onde nos identificamos com o povo ? Talvez estejamos adorando a Deus por aquilo que Ele pode nos dá aqui nesta terra ‘’carros, emprego, riquezas, um casamento, cura, etc’’, achando que essas são as bênçãos que ele tem para nos dá, tendo portanto uma errônea compreensão dos benefícios que Ele tem para nós. Essas não são as promessas que Deus tem para nós, Ele nos ordena sim a buscarmos em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça dizendo que as demais coisas nos serão acrescentadas (Mt 6:33), mas igualmente nos ordena ‘’negue a si mesmo, toma cada dia a sua cruz e siga-me’’ (Lc 9:23). O Senhor não nos chama para uma vida de prosperidade, mas sim para uma vida de renúncia, retidão, santidade. Ele nos ordena a seguir o caminho estreito, dizendo ‘’entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e são muitos os que entram por ela’’ (Mt 7:13) Assim, podemos incorrer no mesmo erro, louvar e bendizermos a Deus com os nossos lábios (Hosana! Hosana!), sem porém compreendermos verdadeiramente o significado da sua cruz. Para concluir essa meditação, gostaria de citar uma frase de Octavius Winslow que diz ‘’Quem entregou Jesus para morrer? Não foi Judas, por dinheiro; não foi Pilatos, por temor; não foram os judeus, por inveja – mas o Pai, por amor!’’. O que isso nos diz ? Que da perspectiva humana, muitos foram responsáveis pela crucificação do nosso Senhor, devido à maldade dos seus corações, mas de uma perspectiva divina, foi o próprio Pai que o entregou como sacrifício por nós, para que recebêssemos salvação e vida eterna. A cruz não foi um acidente, mas uma demonstração do amor e da justiça de Deus. Em todas as coisas Ele é soberano.

Sem derramamento de sangue não há perdão. (Hebreus 9:22)

Em Cristo , Renato Garcia.